Quando somos confrontados com uma teoria oriunda das ciências sociais ou humanas que, em parte ou na sua totalidade, contradiga uma verificação das ciências biológicas, bioquímicas ou físicas, devemos optar por “acreditar” nas ciências da natureza — por razões que são óbvias: o estudo do ser humano, entendido como objecto exclusivo de estudo científico, é muitíssimo falível.
Reparemos na seguinte proposição.
“Segundo a psicologia / psiquiatria modernas, a sociedade não é capaz, por si só, de gerar um indivíduo perverso.”
Agora vamos definir “epigenética”.
A epigenética é o estudo de mudanças herdadas na expressão dos genes (ou nos fenótipos celulares) que têm causas que não sejam as de uma mudança da sequência de ADN, ou seja, a epigenética diz respeito a modificações funcionais importantes no genoma que não envolvam mudanças na sequência de nucleótidos.
Isto significa que um determinado comportamento, ou pelo menos uma determinada tendência, pode permanecer ao longo de múltiplas gerações sem que haja uma alteração do ADN, ou sem que possamos detectar na sequência do ADN qualquer justificação para essa tendência ou comportamento.
O que se passa é que factores não genéticos são a causa de os genes de um determinado indivíduo se expressarem de uma forma diferente do que seria normal.
Isto significa que um neto de um psicopata pode transportar consigo sequelas epigenéticas que o predispõem à psicopatia — independentemente da sequência do ADN ou de quaisquer alterações do ADN, ou de qualquer anomalia da sequência do ADN. A expressão popular secular: “quem sai aos seus não degenera”, intui a epigenética.
Mas para que essa disposição epigenética do potencial psicopata seja despoletada, é absolutamente necessária a interacção com a sociedade. A relação do indivíduo com a sociedade é dinâmica, e por isso, obviamente, não é estática.
Sendo assim, a proposição: “segundo a psicologia / psiquiatria modernas, a sociedade não é capaz, por si só, de gerar um indivíduo perverso”, é um sofisma. Seria semelhante que disséssemos que o ovo surgiu primeiro do que a galinha, sabendo que sem galinhas não há ovos de galinhas.
A psicopatia não é necessariamente detectável na sequência de ADN: não existe um “gene do psicopata”, assim como não existe um “gene gay”, como não existe um “gene do ladrão”, não existe o “gene do glutão”, etc.
Portanto, se a causa do problema do psicopata não é genético stricto sensu, então tem a ver com (1) epigenética, e/ou (2) aculturação, e/ou (3) influencia do meio e/ou educação, etc.. Em suma, o problema está, em última análise, na relação do indivíduo com a sociedade, e portanto é um problema eminentemente social.
Corolário: a proposição supracitada é falsa porque falaciosa. Não existe sociedade sem indivíduo e vice-versa.
Adenda:
Um psicopata impedido, por qualquer meio, de prejudicar a sociedade, não é um sociopata. Podemos definir o sociopatia como sendo o psicopata em plena acção anti-social. A sociopatia não é uma condição: antes, é a acção do psicopata. Quando dizemos: “fulano é um sociopata”, queremos dizer que “fulano é um psicopata a quem deram carta-branca para agir” — porque um psicopata pode ser impedido de agir.