quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

MITOS NA EDUCAÇÃO E PSICOLOGIA por Julio César

psicólogo e mestrando em Ciências da Religião

Há dois mitos complementares de inspirações, romântica e construtivista, que se tornaram dogmas de teorias psicológicas e sociológicas nascidas na modernidade e que atravessam a pós-modernidade, com reflexos nítidos na educação.

O primeiro mito é o bom selvagem. A crença de que o ser humano em seu estado original, ligado à natureza, era altruísta, solidário e vivia em harmonia com seus semelhantes. E que foi a sociedade através de seus contratos e arranjos de poder, personificados no Estado e na propriedade privada, que instalou nele o egoísmo, a competitividade predatória e a violência. Ou seja, a sociedade é a responsável pela degeneração humana, por seus vícios.

O segundo mito é a tábula rasa. A crença de que o ser humano ao nascer é uma “folha de papel em branco”, na qual qualquer história poderá ser escrita, a depender apenas das influências e treinamentos que ele tiver na sociedade. John Watson, por exemplo, o pai da psicologia comportamental (behaviorismo) dizia garantir que dessem a ele bebês sadios e ambientes adequados para treiná-los, poderia tornar qualquer um deles em advogado, engenheiro, artista, comerciante e também em mendigo ou bandido, independentemente de talentos, tendências e da raça de seus ancestrais. O ditador chinês, Mao Tsé-Tung, para justificar sua revolucionária engenharia social embalou a tabula rasa com romantismo “É numa página em branco que se escrevem os mais belos poemas”. Walt Disney também se inspirou no mito ao escrever: “Imagino a mente de uma criança como um livro em branco. Durante seus primeiros anos de vida, muito será escrito nessas páginas. A qualidade desses escritos afetará profundamente sua vida”.

Não! Negar esses mitos não é negar o grande poder de influência da família, da escola, da cultura e do Estado na aquisição e no desenvolvimento das habilidades, do conhecimento, da personalidade e do caráter do ser humano, e na recuperação ou não de suas adversidades. Sim! Se pesquisarmos sobre a educação que uma pessoa recebeu da família, os atores e atrizes que contracenaram com ela no ambiente doméstico e nos demais ambientes que freqüentou, os valores que a ela foram transmitidos, e a história vivida em cada um deles, além da cultura geral na qual ela cresceu, perceberemos claramente que ela não se comporta assim ou assado por acaso, que há razões patentes para se comportar de determinada maneira.

O problema do mito do bom selvagem é que ele apresenta um retrato de um ser humano ideal, não do ser humano real que é um ser cujas virtudes estão entrelaçadas a vícios, e que é dotado de potenciais criativos e destrutivos independentemente da ordem social que ele está inserido. A ordem pode ajudar para o bem e para mal a maximizar ou minimizar seus potenciais, fortalecê-los ou enfraquecê-los, numa medida relativa, para frutificarem ou não, mas não pode instalar nem remover suas raízes instintivas.

Por exemplo, você não precisa ensinar uma criança a ser egoísta, invejosa e sádica basta não dar a ela amor e educação que ela aprenderá por instinto. É só observamos o comportamentos das crianças numa creche para colhermos a prova empírica do pecado original. Porém, ela não aprenderá a amar por instinto, buscará, sim, por instinto ser amada, às vezes da formas mais agressivas.

Outro retrato ideal e irreal do mito do bom selvagem é o da natureza. A imagem de que tudo que é natural é bom e saudável. No mundo animal, por exemplo, há ocorrências de estupros cometidos por gorilas, orangotangos, chimpanzés, elefantes-marinhos, patos, peixes e insetos, cometidos às vezes em bando contra uma única fêmea, no caso dos mamíferos, o que nos leva a constatar que o estupro é um fenômeno natural. Todavia, só um louco maníaco vai querer justificar moralmente o estupro apelando para o instinto natural.

Poderíamos também apelar para o mundo animal para justificar moralmente a maior necessidade dos homens de terem várias parceiras sexuais, já que nesse mundo é normal os machos copularem com várias fêmeas, sendo que o inverso é bem menos freqüente?

Já o mito da tabula rasa quer nos convencer de que em matéria de inteligência e temperamento nada recebemos de nossos ancestrais. Os genes que herdamos deles determinam a cor dos olhos, a cor e a textura da pele e do cabelo, o tamanho da mão, do pé, da cabeça, do pênis e da vagina, a fisionomia do rosto, mas não determinam nada nas dimensões, psíquica e cognitiva, que seriam produtos exclusivos da sociedade.

Uma idéia medonha filiada a esse mito, encampada pelo movimento anti-psiquiatria – não confundir com o movimento anti-manicomial –, afirma que toda doença mental é fruto da opressão social. Logo, se removido todos os estressores que deflagraram a patologia, o distúrbio será curado. Por isso, joguem fora os remédios. Acreditar nisso é partir de um pressuposto ilusionista de que qualquer órgão, o fígado, o rim, o pulmão, o coração e o intestino adoecem, menos o cérebro. Esta idéia é tão científica quanto à de que todo distúrbio psiquiátrico é fruto de possessão demoníaca.

Ora este mito já foi destruído pelos testes de inteligência e de habilidades, mostram nem todos têm os mesmos tipos e os mesmos potenciais de inteligência. Embora muitas vezes quem tem menos potencial, consegue evoluir mais do que quem tem menos. É notório que em algumas culturas e etnias, e entre homens e mulheres, certas inteligências afloram mais do que outras, o que não se explica apenas por razões sócio-históricas.

Obviamente, para ter credibilidade, esses testes devem ser analisados levando em conta os fatores sociais, senão cairá no erro de confundir natural com naturalizado, demonstram que nem todos Por que? Porque a inteligência brota e se desenvolve automaticamente precisa ser estimulada. E para que o indivíduo responda positivamente ele precisa se alimentar, ter sua saúde física e emocional cuidada e espaços adequados de treinamentos, caso contrário não conseguirá atualizar suas potências.

Estudos feitos com filhos que não conheceram seus pais mostram que apesar disso eles mostram traços temperamentais e comportamentais semelhantes. Mães bem treinadas percebem diferenças no temperamento dos filhos nos primeiros dias. O que relativiza a crença de que os filhos devem ser tratados de forma igual. Como tratar igual se eles são diferentes?

Outra conseqüência radial do mito da tábula rasa é a tendência de explicar todas as diferenças de gênero como construções sociais. O caso Bruce é emblemático. Aos oito meses de idade ele perdeu o pênis numa circuncisão mal feita por um médico. Os seus pais procuraram o famoso sexólogo John Money, que lhes disse que o argumento da natureza é uma estratégia política daqueles que querem manter o status quo que diferencia os sexos. Aconselhou-os, então, a castrarem o bebê, implantarem uma vagina artificial e educarem como uma menina, sem contar o ocorrido.
Os pais de Bruce seguiram a recomendação de Money e deixaram Bruce ser transformado em Brenda. Durante muito tempo este caso foi divulgado como exemplo de que os bebês, a despeito de terem genitálias diferentes, são sexualmente neutros, tornando-se homem ou mulher de acordo com a educação. Acontece que o bloqueio politicamente correto foi furado e se descobriu que Brenda se sentia um menino preso num corpo de menina. Rasgava vestidos, rejeitava as bonecas, gostava de brincar com armas, preferia brincar com meninos e fazia micção de pé. Aos catorze anos Brenda em crise aguda com sua condição resolveu que viveria como um homem ou se mataria. Seu pai contou então a verdade, ela se submeteu a uma nova cirurgia de sexo, tornou a ser Bruce e se casou com uma mulher.

É compreensível o temor de modernos e pós-modernos em relação ao “fator natural”, que tantas vezes foi invocado na história para legitimar a escravidão, o genocídio, a eugenia e a discriminação racial e de gênero. Todavia, não encontraremos saídas e resoluções relativamente efetivas para os problemas da humanidade negando um fato evidente, que obviamente não explica tudo, como também o social.

A diferença não é um problema, o problema é a dedução que se fará dela. Viver em sociedade de forma civilizada implica em reconhecer os nossos limites e potencialidades, assim como os do outros, e buscar formas saudáveis de intercâmbio e convivência cientes de que não somos e nem podemos ser seres autosuficientes e, por isso, precisamos do outros. E antes disso reconehcer que a vida é como ela é, não como a gente gostaria que ela fosse.

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